A Farsa





Romênia –
Castelo de Bran – 1786



O Conde Maximilian de Van Bran era o anfitrião da festa, aquela noite seria inesquecível, todo a corte de Brasov havia sido convidada. O Conde era um homem muito rico, tinha uma forte influência no império, aparentava mais ou menos quarenta anos e era viúvo. Sentia-se tão só, que decidiu oferecer um baile a riquíssima corte na tentativa de conhecer uma bela jovem, para fazer dela sua esposa.
Todos os convidados elegantemente trajados chegavam em belas carruagens, o castelo havia sido todo decorado com cortinas, tapetes e almofadas em tons na cor vinho.
O Conde fez questão que tudo saísse perfeito, o vinho servido era o melhor de toda a Europa, mas a surpresa maior foi com a chegada de um convidado ilustre vindo de Viena. Quando Mozart ajeitou-se na cadeira e começou a tocar uma melodia inédita composta especialmente para aquela ocasião, os olhos de toda a corte brilharam como estrelas em noite de lua cheia.

Enquanto os convidados se divertiam, os olhos do Conde percorriam o salão, todas as moças sorriam para ele, mas nenhuma delas havia feito seu coração disparar. Durante a festa, dançou com dezenas delas, mas nenhuma havia despertado seu interesse.
Quando o baile chegou perto do fim sentiu-se completamente desapontado, havia gastado uma fortuna para nada, inconformado recolheu-se aos seus aposentos antes mesmo que alguns convidados tivessem ido embora.
Chegando em seu quarto, aos prantos olhava para o retrato da sua amada, nenhuma jovem se comparava a ela. Ele ainda amava loucamente sua esposa, ainda não havia se conformado com sua partida, fazia cinco anos que ele era viúvo, mas a sensação que ele tinha, era de que ela havia deixado-o naquele dia.

Um ano havia se passado desde o último baile, nesse tempo ele manteve-se sozinho em seu castelo, e só tinha a companhia de seus serviçais. Mais um outono se aproximava e ele permanecia inerte. Era sábado e ele passeava a cavalo pelos jardins do castelo, quando avistou uma carruagem vindo em sua direção. Ficou imóvel aguardando que a carruagem chegasse cada vez mais perto, quando o cocheiro parou a porta lateral se abriu e ele sorriu quando viu James o primo segundo da sua falecida esposa.
O Conde alegrou-se com a visita do amigo, recepcionou-o com muita euforia e fez questão que o amigo permanecesse hospedado no castelo por um bom tempo. Os dois conversaram a tarde inteira, lembraram muito das coisas que passaram juntos e antes que o jantar fosse servido, James disse ao amigo qual era o motivo da sua visita:

- Meu caro amigo Conde, confesso que na verdade a curiosidade trouxe-me até aqui!
- Não entendo caro James, explique-se melhor!
- Bem, você enviou-me uma carta pensando que eu ainda estivesse vivendo em Roma, a carta chegou naquele endereço, mas naquela época eu havia me mudado para Glasgow na Escócia, então sua carta chegou em minhas mãos há apenas dois meses, quando retornei a Roma para visitar um amigo, tive sorte pois o homem que havia comprado minha antiga casa, gentilmente deixou a carta com este meu amigo italiano para que ele me entregasse. E durante esse tempo todo, infelizmente permanecemos sem contato. Passaram-se seis anos quando retornei a Roma a trabalho, e só então pude ler a sua carta relatando a tragédia, por esse motivo não o procurei antes.
- Agora entendo o porque do seu silêncio, confesso que não imaginava que o amigo não tivesse recebido a tal carta.
- Foi tudo muito confuso meu caro Conde! Mas uma coisa angustia-me, estou aqui para esclarecer essa situação que ao meu ver é muito estranha!
- Meu caro James, o que pode ser tão estranho? Você não leu a carta? Lembro-me de ter explicado o ocorrido com detalhes!
- Claro que eu li a carta meu caro amigo, por isso mesmo pergunto-lhe, de onde tirou uma história tão fantasiosa? O amigo mencionou na carta que Elisa havia sofrido um acidente,que havia escorregado nas pedras e caído na cachoeira e que seu corpo nunca foi encontrado!
-Sim e foi isso o que aconteceu caro James, Elisa cavalgava quando o cavalo dela escorregou nas pedras do penhasco e os dois caíram na cachoeira e foram arrastados pela forte correnteza!
- Estou perplexo com essa história meu amigo Conde, quem foi que lhe disse isso?
- Ora caro James, meu irmão viu tudo, ele dava aulas de montaria a Elisa, e contou-me a tragédia nos mínimos detalhes, infelizmente ele não pode socorrê-la, ele a viu sendo arrastada pela correnteza e não pôde fazer nada.
- Caro amigo Conde, estou chocado confesso que falta-me o ar!
- Imagino, sempre foram muito próximos não é?
- Caro amigo, eu não estou chocado pela morte de Elisa!
- Não entendo meu caro James, pensei que tivesse apreço por ela!
- E tenho, mas não posso compactuar com essa canalhice!
- Do que está falando?
- Amigo Conde, eu sei do seu amor por aquela mulher, por isso mesmo acho que não merece o que ela está fazendo, nunca imaginei que fosse tão sórdida!
- Caro James, você está me deixando nervoso, você se refere a ela como se estivesse viva!
- E está! Sinto muito meu caro amigo, mas a sua Elisa está mais viva do que nós, ela mora em Glasgow e é a mulher do seu irmão!

Os olhos do Conde arregalaram, na longa conversa que teve com James, descobriu que tudo não havia passado de um plano para que eles ficassem juntos. James revelou que eles inventaram uma história, como se ela fosse a vítima, disseram que o Conde era um homem cruel e desumano, que tinha várias amantes, que era violento, que a torturava e humilhava-a, e que um dia expulsou-a de casa para viver com uma de suas amantes. Então seu irmão abrigou-a em sua casa com o intuito de ajudá-la. Ninguém havia desconfiado da história, ninguém havia imaginado que tudo fazia parte de um plano. James também disse que havia ficado completamente decepcionado  com a atitude do amigo, por isso também acreditou na história da prima, e só desconfiou da história quando chegou em Roma e leu a carta, por isso resolveu visitá-lo para descobrir a verdade.

A expressão do rosto do Conde era de horror, era difícil para ele acreditar que aquilo tudo era verdade, a mulher que ele amou durante anos era a escória do mundo, e seu único irmão que ele acreditava ser seu melhor amigo, não passava de um inescrupuloso traidor. Seu irmão caçula nunca trabalhou e ele sempre manteve-o, todos os meses enviava-lhe uma enorme quantia em dinheiro para pagar seus estudos, o Conde havia presenteado-o com uma bela casa em Londres e também sustentava todos os seus luxos. Tudo o que Marxilius possuía havia sido dado pelo seu irmão mais velho.

Depois de três dias James tinha que voltar para a Escócia, estava enojado com a mentira e prometeu ao Conde que não diria nada a Elisa, pelo contrário, até incentivou o amigo a desmascará-la e o Conde dominado pelo ódio e a raiva, a eles jurou vingança.

No outro dia, o Conde já sabia o que fazer, queria a todo custo descobrir que tipo de mulher ela era, e seu irmão também pagaria por isso. Durante a noite havia articulado um plano regado a puro veneno, seus olhos ficaram cegos pelo fogo do ódio, infelizmente o plano que ele havia arquitetado  seria a única maneira de provar para o irmão quem era aquela mulher. E na primeira hora da manhã partiu para a Escócia. Chegando lá, usando um nome falso alugou um imóvel, naquela cidade conheceu muita gente ambiciosa, e por muito dinheiro contratou um gigolô e uma meretriz para fazerem parte do plano. O casal de vilões aos poucos foram aproximando-se do casal feliz, encontravam-se regularmente em altas festas da corte, eles apresentaram-se a sociedade escocesa como se fossem Marqueses e ninguém desconfiou que eles eram impostores.

Em pouco tempo tornaram-se amigos e reuniam-se com frequência em eventuais jantares em suas casas. O Conde havia alugado um imóvel luxuosíssimo para os supostos Marqueses, e os mantinha materialmente, tudo parecia perfeito.
Com o passar do tempo o Marques passou a cortejar Elisa, e ela deixou-se envolver pelo charme, o dinheiro e o poder daquele homem, o que ele prometeu a ela superou o amor que ela sentia pelo marido, então entregou-se a ele perdidamente. O papel da marquesa era plantar na cabeça de Marxilius, a desconfiança de um suposto envolvimento entre seu marido e Elisa.
Marxilius era um homem muito ciumento e não admitia a possibilidade de ser traído. A casa que o Conde havia alugado ficava em frente a casa do seu irmão, e pela janela discretamente presenciava todas as brigas e discussões do casal.

E a trama estava para terminar,  Marxilius havia recebido uma carta do Conde dizendo que ele estava muito doente, na carta o Conde dizia que o irmão precisaria encontrá-lo urgentemente, pois já tinha feito o testamento e deixado seus bens para ele, Marxilius quando leu a carta alegrou-se, arrumou as malas e partiu para a Romênia. No caminho encontrou a carruagem da Marquesa, ela aos prantos o fez parar e disse-lhe que havia descoberto o envolvimento do Marques com Elisa, e disse que sabia onde eles se encontravam e que eles estavam juntos naquele exato momento. Marxilius foi tomado pelo ciúme e acompanhou a marquesa em sua carruagem. E logo chegaram a um pequeno vilarejo, bem longe das outras casas havia uma cabana perto das montanhas. O Marques estava no leito com Elisa quando ele chegou e os surpreendeu juntos, tomado pelo ódio Marxilius deferiu alguns socos no rosto do Marques, que mesmo atordoado conseguiu fugir logo em seguida, deixando-os a sós naquela cabana.

Marxilius aos prantos gritava como um louco, xingou-a de todos os nomes, ofendendo-a dizendo que ela não valia nada, que por causa dela ele havia enganado o irmão que ele tanto amava, que por causa dela ele havia se perdido e se vendido, que por causa dela ele havia feito tudo o que fez, que se ela não tivesse provocado-o daquela forma, se ela não tivesse invadido seus aposentos nua, enquanto seu irmão dormia inocente no quarto ao lado, se ela não tivesse se entregado a ele daquela forma, jurando-lhe amor eterno, se ela não tivesse enfeitiçado como enfeitiçou, ele não teria feito parte daquela sujeira toda.

Com os olhos vermelhos e o ódio no coração provocado pela traição, tirou da cintura uma pistola e deferiu um tiro contra o peito de Elisa que morreu na hora, aflito saiu da cabana chorando e aos berros gritava:
- Por que você fez isso comigo Elisa, porque? Eu te entreguei a minha vida mulher ingrata, porque fez isso, porque? Porque teve que ser assim, porque eu tive que mentir e enganar por você? Porque que por você eu tive que ser um canalha!

Num gesto súbito de desespero, ele colocou a arma na boca e puxou o gatilho.

O Conde estava escondido atrás de uma árvore, ouviu e presenciou tudo que havia acontecido. Ele caminhou lentamente em direção ao irmão, quando chegou perto e o viu morto, seus olhos encheram-se de lágrimas, ele ajoelhou-se, tocou a mão do seu irmão e disse-lhe:

-Sinto pena de ti meu irmão, porque eu soube de tudo no final, mas você sabia desde o inicio quem era ela...




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15 comentários:

  1. Arrasou Vanessa, voltei no tempo, estive no Baile, no jantar com James, indignei-me com a revelação, fui com ele p Escócia, vi o falso casal contratado, acompanhei a construção da falsa amizade, a leitura da carta que dizia estar o Conde nas ultimas, o flagrante, e por fim a vingança consumada do Conde traído que não precisou puxar o gatilho,e de forma inteligente teve a sua vingança! Adoreiiii, apesar do sofrimento do Conde! Bjooooossss

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  2. Nossa, incrível! Muito inesperado. Juro que no começo achei que o condo era o Drácula e ia procurar sua vítima no jantar luxuoso, e na verdade a história de desenrolou de um jeito muito diferente. Pena que ele continuou sozinho...

    Beijos!

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  3. Viajando no tempo consigo numa história de amor e traicção. Adorei!Beijinho

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  4. Eita que mulherzinha hem??? Tem gente que só vem nesse mundo para destruir os outro, amei o conto meus parabéns.

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  5. A primeira parte foi linda me senti
    voando no tempo e imaginei eu la
    dançando ao som de belas musicas
    e maravilhada com tanta beleza.
    Mas depois coloquei meu pé no chão
    e vi o quanto as pessoas não pensam
    quando tem um amor verdadeiro
    Acabam perdendo tudo.Um conto
    maravilhoso..Bjusss adoreiiiii

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  6. Vanessa,
    Humano, dramático, comovente e escrito com grande talento e sensibilidade. Parabéns pelo ótimo conto "capa e espada'. Abraços, JAIR.

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  7. Vanessa, querida, adorei seu conto.
    Parabéns pelo talento e criatividade! Beijos!!

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  8. 01h da madruga e eu aqui te lendo, guria. Acho que vou sonhar com castelos, condessas, condes e valsas...
    Valeu, Vanessa! Ótimo fim de semana.

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  9. Adorei Vanessa, que história!!! Comecei a ler e não pude parar. Isso é o que faz bons escritores.
    Um grande beijo

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  10. Olá Vanessa, gosto dos contos de época. Esse ficou muito bom. A frase final, sintetizando a perspectiva do conde foi excelente.

    Pobre do homem que confia cegamente na mulher. (E a recíproca também é verdadeira :D).



    Beijão!

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  11. Sensacional, já postei no Terapeuta que a Pati indicou sem duvida um dos seus melhores escritos que cabeça boa em menina quando vem o livro??????

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  12. Lindo conto!
    Você escreve lindo e nos prende na leitura. Gostei muito! Parabéns!
    Bjinhos XD

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  13. Teria dado um pau nela mas gostei do que fez kkk escritora é isso né.

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  14. Que mulher mardita credo bem feito de quem acreditou nela.

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  15. uau! estou recomendando a leitura! dramático e envolvente este conto.

    bjs

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Vanessa Palombo

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