Nas Entrelinhas




Quando não escrevo,
As palavras sufocam-me ferozmente,
Tanto, que preciso libertá-las a todo custo,
Soltá-las ao vento,
Para que voem livres na imensidão do ir e vir do tempo.

As palavras também precisam de carta de alforria,
Precisam de força para chegarem ao destinatário,
Tanto faz se as palavras chegam explícitas ou nas entrelinhas,
Sinceramente, isso não importa.

Até porque,
Nas entrelinhas das palavras é que as coisas mais inesquecíveis são ditas,
Nas entrelinhas dos pensamentos formam-se todas as memórias,
E nas memórias,
Minha história nas entrelinhas...


                                              


Previsível






Tudo parece tão previsível tratando-se dela,
As pessoas preocupam-se com seu bem estar,
Com sua saúde física e mental de verdade.

Sua família anseia por mudanças,
De certa forma,
Todos a aconselham incansavelmente,
Tentam orientá-la,
Tentam ampará-la,
Tentam confortá-la para que perca o medo de enfrentar o desconhecido,
Medo ou comodismo de arriscar-se para o novo?
Talvez nem ela saiba a palavra exata que a descreva.

Vive um relacionamento devastador,
As pessoas a sua volta sofrem da mesma forma,
Esperam ansiosas por alguma mudança,
Esperam que um dia ela diga Não a Ele.

Enquanto isso,
Perde a razão e a noção do que lhe causa mal,
É chantageada,
Humilhada,
Agredida tanto fisicamente quanto verbalmente.

Não sabe o que é brio,
Orgulho,
Ou amor próprio.

Vive inconscientemente dentro de um filme dramático,
Onde a personagem principal é Si mesma.

As vezes,
Tenho a impressão que ela só sabe viver se for assim,
Não há nada que possa ser feito sem o consentimento dela,
Só ela é capaz de mudar o roteiro,
As personagens,
O cenário,
E reescrever sua história.

Por enquanto, lamento!

O tempo está passando e continua vivendo a história de um filme nada original,
Pelo contrário,
Infelizmente esse filme é igual a história real de tantas mulheres.

Melancólico,
Violento,
Incerto,
Com final trágico e infeliz,
Tão obviamente,
Previsível...



Nossa História




Todas as direções nos levavam ao desespero,
Parecia que vivíamos em câmera lenta,
A confiança havia se despedaçado,
Como um cristal atirado com força ao solo,
Os cacos estavam espalhados por toda parte.

O espelho que refletia nossas certezas,
Havia sumido com o caminhão que fez nossa mudança,
Uma tempestade devastadora  havia nos roubado a esperança,
Ficamos por muito tempo submersos nas lágrimas que nos afogavam lentamente,
Desistimos de nós,
Por achar que todos os nossos sentimentos,
Haviam desaparecido no frio da escuridão,
Nos sentenciamos a uma prisão dolorosa e invisível,
Não havia saída,
Todas as direções desapareciam diante dos nossos olhos.

Até que,
Naquele dia,
Nossos olhares se reencontraram,
E nos enxergamos além da retina,
Enxerguei sua alma tímida e amedrontada,
Você conseguiu enxergar a minha despida de tudo,
Então nos reconhecemos no meio do caos,
E nesse caos, espalhamos nossas sementes e plantamos nossos girassóis.

Com o tempo colocamos novamente tudo em seu devido lugar,
Consertamos tudo que havíamos quebrado,
Com raios de sol iluminamos tudo que não tinha cor,
Retiramos o entulho e pintamos as paredes com o nosso amor.

No jardim da nossa vida,
( Vida, forma carinhosa de se referir a mim)
Agora regamos a certeza, a esperança, a paciência,
E principalmente, a cumplicidade e a confiança.

Nada é eterno,
Mas tudo que vivemos,  certamente é!

Vamos viver intensamente nossa história,
E o que tiver de ser,
Que seja só com você....




Indefinido





Ela escrevia para  libertar-se,
Para extravasar o que estava sentindo,
Pensamentos incontroláveis,
Insanos sobrevoavam sua cabeça.

Tudo era o que parecia ser,
Tudo fazia sentido por algum tempo,
Mas depois não mais,
Sentimentos inexplicáveis misturavam-se aos que eram óbvios,
E chocavam-se,
Chocavam-se e misturavam-se,
Seguidamente nesta ordem.

Tudo era inconstante e indefinido,
Tudo era e não era,
Todas as emoções eram supostamente explicáveis,
E indefinidamente irreais.

Ela queria ser na verdade uma estátua de gelo,
Para não sentir mais nada,
Mas sentia,
E o que sentia, feria a alma.

Então  para não afogar-se dentro de um mar de lágrimas secas,
Escrevia para libertar-se,
Para compreender se as regras sem regras do coração,
Se pela razão fazem sentido!?
Ou se tudo nao passa mesmo,
De Indefinido....

                                                          

O Regresso





Deixei a estrada florida,
Para percorrer uma nova estrada,
Desbravei caminhos desconhecidos,
Olhei o mundo através das lentes marrom dos meus óculos escuros,
Percorri outras paisagens e senti novos aromas,
Gostos e sabores,
Durante o percurso,
Certezas incertas consumiram-me pouco a pouco,
Fui perdendo a lucidez tentando compreender as razoes que levavam-me para longe.

Na verdade sempre desconfiei que minha sanidade não cabia exatamente dentro do cérebro,
Assim como meus sentimentos nunca couberam dentro do espaço físico do corpo,
Sou a tempestade que devasta,
E ao meu tempo a chuva de verão que refresca.

Durante o percurso, algumas atitudes fizeram do que era novo tornar-se velho,
Enigmas indecifráveis da minha existência perturbadora,
Fizeram de mim um labirinto sem começo, meio e fim,
Escolhas aleatórias deixaram cicatrizes profundas em outros corações.

Meus devaneios causaram dores inexplicáveis por toda parte,
Fui o Judas de mim mesma,
Neguei-me três vezes como Pedro,
Dei a cara a tapa, como Thomé tive que ver para crer,
Como se a sabedoria de Salomão tivesse sido confundida com a manipulação de Dalila,
Fui Josué de mim mesma,
Parei o sol que aquecia-me por pura vaidade,
Cometi injustiças em nome do que chamei de amor,
Fiz e desfiz,
Estendi a mão e depois as recolhi,
Pintei e bordei as folhas do livro da minha vida,
Com uma espécie de sangue invisível.

Retrocedi,
Tive que sentir na pele a dor de perder-se de si mesmo,
Fui perdendo-me durante o percurso.

O tempo passou e um dia para minha surpresa,
Reencontrei-me exatamente na estrada inicial,
A estrada singela que encantava-me com flores coloridas.

Tudo agora parece ainda mais encantador,
As flores estiveram o tempo todo a minha espera,
Belas, coloridas e perfumadas.

Como um filho pródigo que retorna ao lar.
Retornei e um pranto sentido escorreu pelos meus olhos.
Inconscientemente o aroma mágico do amor impregnado nas flores da estrada,
Trouxeram-me de volta...




Poeira da Estrada





As vezes, você também tem a sensação de que nada faz sentido?
Essa sensação me consome, apesar de não acreditar piamente,  pra mim a vida se parece muito com um  quebra-cabeças e quase nunca as peças se encaixam, por alguma razao.
Se tivesse poderes mágicos voltaria no tempo e faria tudo diferente,
Absolutamente tudo, mas não podemos voltar no tempo.
Será que perdemos tempo demais com coisas que nos fazem perder tempo?
Será que realmente é assim?
Ou será que as coisas que nos fazem perder tempo, não são exatamente as mesmas coisas que nos fazem ganhar sabedoria e compreensão?
Tempo é tudo que temos e não temos ao mesmo tempo,
Todos os dias são diferentes um do outro por mais que se pareçam iguais,
Todos os dias temos a chance de recomeçar e fazer algo diferente,
Mas não fazemos por medo, comodismo, ou não fazemos por falta do tempo que pensamos não ter.
O próximo amanhecer pode ser o último, hoje pode ser o último dia,
Sabemos que é assim, a ordem é nascer e morrer,
Mas não estamos preparados para morrer não é mesmo?
O medo de arriscarmos algo que talvez possa dar certo, torna-se gigantesco,
Como não temos certeza de nada, continuamos exatamente como está.
Na verdade nos tornamos reféns de nós mesmos desde o inicio,
Somos aprisionados por medos que carregamos desde a infância,
Os palavrões ditos com fúria na briga dos pais, as pessoas que nos violentaram fisicamente ou emocionalmente, que não são esquecidas com nenhum tipo de terapia.
Somos acorrentados  por condutas, normas e regras que foram inventadas e nunca cumpridas,
Somos amordaçados para não gritar aos quatro ventos as nossas dores e rancores,
Só os “fracos” demonstram o que sentem,
Só os “fracos” choram,
Só os “fracos perdoam”
Somos censurados para não fazer o que não é justo,
Mas justo pra quem?
Pra mim, pra nós ou ninguém?
Os que ditam as regras são os mesmos que as quebram,
Sentimos tanto e demonstramos tão pouco,
Amamos tanto mas não sabemos o que fazer com tanto amor, não sabemos o que fazer pelo outro e para o outro, não sabemos dizer “eu te amo”
O egoísmo que nos dilacera, anda sempre de mãos dadas com o ego desafiador  que habita em  nós, limitando assim nosso perdao.
Não somos capazes de perdoar e nem reconhecer nossos próprios erros,
Quem dirá perdoar e amenizar os erros dos outros.
Arrastamos nossos sentimentos pela longa ou curta estrada da nossa vida,
E por essa estrada seja ela qual for,  
Os pedaços destroçados dos nossos corações decepcionados, se misturam a poeira da terra que o vento traz,
E a poeira por nos incomodar, faz escorrer lágrimas vermelhas dos olhos....




                                                   

No escuro do quarto


                                   




Agora,
Só agora,
Nesse instante,
Quero mergulhar no castanho de águas profundas dos seus olhos,
Só agora,
Nesse minuto,
Envolventemente,
Quero esquecer de tudo que não seja seu corpo,
Só agora,
Quero que o tempo pare,
E que a noite não tenha fim,
Particularmente,
Nesse minuto,
Nada mais importa,
Só agora,
Sem demora,
Enlouquecidamente,
Em êxtase,
Nesse instante,
Estonteante,
Meu batom vermelho é arrancado da boca.

Abro os olhos e pela janela vejo no céu estrelado,
A lua cheia brilhante nos reverenciar.

Fecho os olhos,
Nada mais importa,
A lua guardará nosso segredo,
Agora,
Só agora,
Nesse momento,
Sem demora,
Nossas essências são misturadas,
No escuro do quarto,
Nesse instante,
Apaixonadamente,
Sem fim,
Você em mim...


                                                                         
Não posso, não quero e não vou fugir do que sou, sou a soma de todos os meus atos, sou o resultado de tudo que fiz e vivi, e vivendo na intensidade de mim, me tornei única!



Vanessa Palombo

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